15 agosto 2016

Formar a ganhar ou...



Parece dizerem o mesmo, mas na realidade não significam o mesmo. Enquanto que "formar a ganhar" pressupõe estar a formar ao mesmo tempo que esteja a ganhar, o "formar e ganhar" já não o pressupõe. "Formar e ganhar" significa dois momentos distintos, no qual num há formação e noutro há o ganhar. Não significa que para se formar bem é preciso ganhar. É importante ter estas noções bem definidas, porque no futebol de formação nem sempre o dito "formar a ganhar" é o mais positivo e passo a explicar o porquê.

Vamos dividir a formação em dois grandes momentos. O primeiro é quando os jogadores só competem com jogadores do mesmo escalão e com jogadores com o mesmo nível de experiência. Ou seja, estamos a falar dos escalões jovens até aos júniores. Quando chegam aos seniores, a formação entra num segundo grande momento. Os jovens competem agora com todo o tipo de jogadores, nomeadamente com jogadores com muito maior experiência competitiva e maturidade. Notar que, no primeiro momento, poderemos ter jogadores que saltem de escalão competitivo mais rapidamente, fruto de uma maior maturidade competitiva, tanto ao nível físico, como técnico, como mental. Contudo, a diferença desses saltos nunca é tão enorme quando um jogador chega ao seu primeiro ano de sénior. Quer isto dizer que vamos ter problemas diferentes. E a resposta a esses problemas é que definirá a possibilidade de termos o "formar a ganhar" ou o "formar e ganhar".

Nota importante: isto nada tem a ver com o termos e defendermos uma filosofia de "formar a ganhar". Nisso estamos todos em sintonia. Agora, é preciso entender quando tal é realmente possível e quando, não é o mais aconselhável. Vamos contextualizar dando alguns exemplos. Começamos por um exemplo de uma equipa de formação ainda no primeiro momento. Nesta fase do desenvolvimento do jovem, é normal que uma formação à "antiga" privilegiasse o jogador fisicamente mais desenvolvido. Isso tinha um efeito perverso que era o de ter um modelo de jogo de formação baseado na capacidade física. Indo mais em detalhe, imaginem terem na vossa equipa de benjamins e terem um calmeirão que consegue rematar à baliza no pontapé de saída. Imaginem que do outro lado, o miúdo que está à baliza é um minorca... estão a ver o resultado? O que é que o miúdo que chuta à baliza vai aprender nos treinos? Remate! Remate! E remate! E, o passe? E, as movimentações? E, a procura do espaço? E, as coberturas? E,... os princípios específicos do futebol? Isso será sempre delegado para segundo plano, enquanto que a vantagem física dele for suficiente para o nível em que está inserido. O problema é quando chega a sénior. Aí é ó tio! Ó tio! Frente a jogadores de um nível físico semelhante, o que fará a diferença é o conhecimento do jogo noutras vertentes. E, por isso, não raras vezes vemos grandes esperanças a perderem-se nesses primeiros anos de sénior. E, quando analisamos esse trajecto, se calhar, teria sido mais prudente, não vivermos obcecados pelo "ganhar", mas sim no "formar" com qualidade.

Por este tipo de exemplos, é que devemos ter cuidado com a exigência da componente "ganhar". Pode parecer contraproducente, mas, por vezes não se forma apenas ganhando. Por isso, é que não tenho sido tão agressivo perante os maus resultados da nossa equipa B e dos cada vezes maiores ataques ao treinador Hélder Cristóvão. É normal, que nós adeptos queiramos sempre que a nossa equipa ganha. Desde a equipa principal até à equipa de berlindes. Faz parte do nosso ADN, vencer. Isso não é mau por si só termos essa exigência. O que é mau, é quando a sede, a obsessão de vencer, acaba por toldar a visão da excelência da formação. No exemplo da equipa B seria muito mais fácil formar um plantel com alguns miúdos e um núcleo expressivo de jogadores com certa experiência, tal como foi feito o exemplo anterior da equipa de benjamins ao recrutar jogadores fisicamente mais desenvolvidos. Essa seria a vantagem competitiva intrínseca da equipa. Assim, os miúdos iam à boleia. Agora, também é certo que só se verdadeiramente aprende errando. E, se queremos que esses miúdos sejam realmente vencedores, é importante que tenham esse espaço para errar. Tenham espaço para jogar e errar. E, é isso que tem sido a equipa B, quer se goste ou não. Acredito, que muitas vezes o Hélder coloca jogadores para eles irem ter minutos de competição, mais do que pretender ser o campeão da segunda liga. Se o Sporting e o Porto fazem tudo para serem campeões da 2ª liga? É natural, visto que só assim têm visibilidade. Mas, com projectos de equipa B com jogadores a fazerem os seus terceiros e quartos anos de seniores, assim também eu! Eu sei que este assunto dá pano para mangas. Eu próprio penso que é possível fazer mais na equipa B relativamente aos resultados desportivos diz respeito, mas temos de entender que por vezes o "formar a ganhar" não é o melhor para "formar" com qualidade um jogador que possa "ganhar" no futebol.

Para terminar, e porque também é importante entender que não há uma receita/um caminho correcto para o sucesso da formação, reparem nas trajectórias de carreira, a nível de formação de André Horta e de Gonçalo Guedes. Enquanto o primeiro, acabou por seguir para o Vitória de Setúbal ainda nos júniores e retornou esta temporada ao Benfica, o segundo continuou no Seixal. Notar que Setúbal, o Horta apesar de pouco vencer nos escalões de formação e no primeiro ano de futebol sénior, acabou por desenvolver-se muito mais, com o espaço e tempo para errar naquele lugar. Este exemplo, espelha bem o espaço e o tempo que os jovens têm de ter para formarem-se com qualidade. Contudo, o Gonçalo Guedes é o reflexo que não é necessário perder para se formar com qualidade. É também um bom exemplo, da importância do contexto e do tipo de companheiros que tem ao lado. Em suma, é possível "formar a ganhar", mas se não for possível, que seja a "formar e ganhar".

Por vezes formar bem e com qualidade não é apenas ganhar e é preciso entender isso
para perceber o porquê de algumas opções de Hélder Cristóvão na equipa B.

24 comentários:

  1. Mas os dois momentos distintos poderão estar a acontecer ao mesmo tempo.

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    1. Aconselho a leitura do texto.

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    2. Enganei-me. Ações. Ações distintas que acontecem em simultâneo.

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  2. As duas expressões têm o mesmo significado.

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    1. Aconselho a leitura do texto.

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  3. Formar para ganhar, aí sim, poderíamos supor que há causa e consequência em momentos distintos.

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    1. Aconselho a leitura do texto.

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  4. Concordo quase com todo o post, excepto, quando chega à parte do Helder Cristóvão, e nesse lote coloco tb o Tralhao. Sigo a formação do Benfica à algum tempo, e temos visto miudos muito bem trabalhados, desde as escolinhas até aos juvenis, depois chegam a tralhao e parece que alguns desaprendem tudo o que tinham aprendido anteriormente, será do modelo? Será da mensagem do treinador que não passa? O que vejo são miudos atrapalhados em campo, perdidos, com adaptações a lugares que nunca fizeram, e insiste se nisso até se ver que não dá e o jogador está perdido.
    Temos visto isso tb nos juvenis do ano passado, onde Gelson Fernandes andou a ser adaptado a defesa direito, sem grandes resultados, chegou o Europeu e vimos um Gelson no meio campo cheio de força, qualidade de passe e decisão, e recuperacao de bola... de nada serviu essa amostra, pois Tralhao parece contar com o miudo para defesa direito... perde se um bom medio, ganha se um lateral vulgar.
    Depois passa se a Helder, e aí o caso ainda é mais gritante, jogadores fora de posição natural, parecendo baratas tontas em campo, sem saber o que fazer, e como fazer, neste caso nem formar nem ganhar, este treinador é uma vergonha, tão depressa mete 5 centrais em campo ao mesmo tempo como a seguir inventaum lateral.
    É mau demais pra uma fase tão importante no desenvolvi0de um jovem que está a fazer a passagem para o futebol profissinal, não entendo como continuam estes dois senhores ao serviço do SLB, formar a ganhar incutindo nos miudos espirito ganhador, dominador, lutador, e neste momento o que se passa com estes 2 senhores não tem sido nada disso.
    Era urgente rever esta falta de qualidade de trabalho, mas parece que a direção fjcou contentecom os resultados tão fracos em juniores e equipa B na época passada. Cumprimentos

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    1. Devem ser protegidos do presidente e ninguém tem coragem de os contestar.

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    2. Pedro Agostinho,

      O facto dos jogadores da B parecerem baratas tontas não é sintoma de culpa exclusiva do treinador. É também do próprio jogador, ainda para mais nestas equipas Bs. Uma coisa é serem os melhores jogadores da idade deles. Outra é chegar a sénior e jogar frente a jogadores que têm mais do dobro da idade deles e só em competição. Isso é o que os faz perder. E por mais que o treinador os treine, haverá sempre uma lacuna de experiência que só jogando e errando é que eles vão aprendendo.

      Isto pode ser colmatado com um núcleo mais experiente na equipa B. Contudo, se a intenção é formar o máximo número de jogadores, então só dando chances ao maior número de formandos é que chegaremos lá... mas, é preciso assegurar sempre que a equipa se mantenha na 2a liga. Ou seja, entendo as ideias e opções do Hélder dado o projecto do Benfica. No entanto, devemos estar sempre a reavaliar consoante o momento.

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    3. E quem faz a avaliação?
      Parece que ninguém.
      O Hélder tem ideias?
      Pelos factos apontados pelo Pedro parece que é mais tudo ao molho e fé na Santa.

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    4. "Ou seja, entendo as ideias e opções do Hélder dado o projecto do Benfica. "

      Que ideias de jogo é que o Cristovão tem??? surreal a tua afirmação...

      O problema não é jogarmos com miudos e perdermos, o problema da B é que não há rumo algum naquela equipa, não há nenhuma linha orientador por onde se pegar, onde os jogadores jogam todos fora das posições e a única ideia que o Cristovão lhes transmite é "tudo ao molho e fé em Deus"

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    5. José Ramalhete,

      O Hélder tem ideias e elas até são em concordância com o modelo de jogo da equipa principal. Por isso é que miúdos como João Carvalho, habituados a jogar em meio-campos de 3 jogadores têm sentido dificuldades nesta transição para o futebol senior. Não só tem de competir frente a jogadores bem mais matreiros e experientes, como está a habituar o seu jogo a um modelo em que o obriga a fazer iutras coisas que antes não fazia.

      Por isso vemos muitos dos nossos miúdos atrapalhados. Sobretudo, no ano passado que foi o primeiro deles a eate nível.

      Pessoalmente, seria positivo que pensassem numa forma de que o impacto não fosse tão abismal. Mas, também reconheço vantagens neste método, pois também dá para avaliar a componente mental, do querer, do atleta.

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    6. Kafka,

      Quem te diz que jogam todos fora de posição? E desde quando há posições fixas em jogadores que nem sequer terminaram as suas formações? Mais, os melhores jogadores do mundo até não são aqueles que são mais polivalentes?

      Aliás, a formação do Ajax faz isso desde os tempos de Rinus Michels e do seu futebol total. Qual é o problema?

      É preciso entender que sujeitar os jovens jogadores a este tipo de contextos não é para apenas os avaliar. É acima de tudo para lhes darem contextos difíceis que lhes permitem ver como eles conseguem superar e evoluírem na forma como ultrapassam as dificuldades.

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    7. E quem faz a avaliação?
      Parece que ninguém.
      O Hélder tem ideias?
      Pelos factos apontados pelo Pedro parece que é mais tudo ao molho e fé na Santa.

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    8. Tenta ver o jogo desta tarde frente ao Gil Vicente para perceberes que não é verdade isso de "tudo ao molho e fé em Deus".

      😉

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  5. Hélder nao tem qualidade pra estar no benfica.
    Não tem qualidades tecnicas para a tão importante tarefa de garantir a passagem tranquila dos miudos a seniores,uma fase critica em muitos miudos. Por exemplo Romário nas camadas jovens tava 3 passos à frente dos outros todos,e na passagem a senior,puff. Quantos casos há assim. Pra mim teve azar em apanhar dois dos piores treinadores possiveis nesta fase critica. A equipa b devia ser utilizada pra dar minutos aos menos utilizados na equipa A, dessa maneira estariam sempre.com ritmo competitivo,emprestariam a experiência necessária à inclusao de alguns miúdos a incorporar,e penso que seria o modelo ideal a adotar e que iria beneficiar tanto a equipa A como os proprios miudos, mas xlaro que não é com Cristóvão que vamos lá,espero bem que seja posto a andar o quanto antes e que leve com ele o tralhão.

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    1. Totalmente de acordo, o Cristovão tem de ser despedido, sob pena de se estar a destruir tudo o que de bem se tem feito na formação, por no topo da cadeia estar um completo cepo como o Cristovão...

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    2. O Romário é um bom exemplo do que escrevi no texto. Um miúdo que já de si era muito mais desenvolvido fisicamente e tecnicamente que outros no seu escalão e como tal não sentiu necessidade de desenvolver capacidades na leitura do jogo que quando chega a sénior falha por isso mesmo. E em vez de reagir tentando adaptar-se ao jogo, bate com o pé na relva a culpar tudo e todos menos ele.

      Quantos... mas, mesmo quantos talentos perdem-se assim... parte por culpa do sistema de formação (que tem de saber informar o jogador), mas sobretudo por culpa do próprio (que tem de entender o que se passa e tentar reagir).

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    3. Kafka,

      Depreendo que vocês querem é vitórias. Não querem formar jogadores para serem reais opções. O que este artigo alerta é que nem sempre é possível fazerem as coisas de forma assim tão "smooth", porque faz parte do processo de formação errar e aprender com os erros.

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  6. o benfica tem feito bom trabalho para corrigir o aspecto fisico com alguns jogadores (jose gomes gonçalo guedes renato) ha outros que podia fazer o mesmo (gedson florentino embalo) a critica que penso que todos fazem ao helder e porque apesar de serem muitos e muito jovens, os miudos tem qualidade e ao que parece e que nos jogos todos baixam consideravelmente a qualidade, o facto de jogarem com jogadores seniores e por isso mais experientes nao e desculpa para tudo apesar de ser bastante importante, eu critico e por exemplo a quantidade de vezes que ves os jogadores da b a cruzarem sem nexo, a falta de movimento dos jogadores e com isso tb a falta de linhas de passe... resumidamente problemas tacticos da responsabilidade do treinador (atençao eu nao tenho nada contra o helder e nem vi mts jogos da b para pedir o despedimento dele) acho que o problema nao esta tanto no ganhar no que toca a equipa b mas no proprio futebol que praticam que e fraco

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    1. A nossa percepção da qualidade desses jovens é de quando eles estavam a competir nos seus escalões de formação. Chegam a seniores e têm de competir com jogadores que embora tecnicamente inferiores sabem tudo do jogo e por isso é que têm problemas.

      Por exemplo, o fato dos nossos procurarem o cruzamento, é porque não conseguem atacar pela região central, e porque achas que isso acontece? Porque o jovem tem a tendência para adornar os lances, para engonhar o passe, e os matreiros da segunda-liga sabem disso de tal forma que conseguem quase sempre neutralizar esse jogo interior. É por isso, que vês um João Carvalho que na formação era um craque a perder bolas fáceis e a jogar mal na equipa B.

      A falta de movimento dos jogadores é normal. Estamos a falar de miúdos que só pela técnica e finta que têm conseguiam desbloquear nos escalões mais jovens, onde o desnível de uma qualquer outra equipa para o Benfica é brutal.

      Por outras palavras, como podem os miúdos interpretar tácticas e estilos de jogo exigentes se ainda têm muito para aprender?

      Depois, juntamos a esse factor, a exigência de jogar num modelo de posse de bola como o da equipa principal, que requer maior concentração, eficiência e eficácia. Por exemplo, este mesmo João Carvalho estava habituado a jogar a "10", sendo o mais adiantado num meio-campo a três. Na equipa B, joga a "8" ou a falso extremo, porque jogamos como na equipa principal, com dois avançados (um deles um avançado móvel). Isto faz com que ele tenha outras exigências com e sem bola que tem de entender. A adaptação disso não é fácil, mas será muito benéfica. São as tais dores de crescimento necessárias.

      Os miúdos têm é de se chegar à frente e de se adaptarem. Aliás, este modelo põe a nu a personalidade do atleta. Para se ser jogador de futebol não é preciso ter apenas talento. É preciso muito mais. É preciso ser um jogador nato.

      É óbvio que o treinador também tem de fazer de tudo para os encaminhar no sentido de eles atingirem os seus maiores potenciais.

      Depois, é preciso termos atenção sobre que tipo de treinador querem na B. Qualquer outro, a meu ver terá uma agenda (leia-se quer fazer resultados e depois sair dali para outro projecto mais ambicioso). O trabalho da equipa B, requer um treinador de continuidade e que não tenha uma agenda tão urgente. Isto, porque há muito para aprimorar e essa aprimoração se faz com experiência de ano para ano com os jovens, pois quer se queira ou não, não existe experiências deste nível em Portugal.

      Dito isto, concordo em absoluto que devemos exigir mais e melhores resultados à equipa B. Mas, devemos ter o bom senso de não exigirmos títulos...

      ;)

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    2. Se "não existe experiências deste nível em Portugal", então recorra-se ao estrangeiro. Não queremos ser os melhores?
      Não será com Tralhões e Hélderes que vamos atingir a excelência.

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    3. José Ramalhete,

      Não sei se tiveste oportunidade de ver o jogo desta tarde frente ao Gil Vicente. Penso que para quem viu percebe que o problema não é o trabalho de treino do treinador.

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