16 agosto 2013

Um olhar sobre o Portugal-Holanda...

Rapidamente, foi um jogo de muita luta, onde uma Holanda equilibrada e organizada faz o seu tento praticamente no seu único remate de renome e, onde Portugal desiquilibrado e desorganizado e após algumas tentativas, lá consegue o seu golo... através de um lance de bola parada.



Um bom treinador resolve muita coisa...
Seleccionador holandês Louis van Gaal, um exemplo de um
treinador de topo.
Antes de fazer uma análise às individualidades dos dois lados, gostava de abordar a importância de ter realmente um treinador muito competente. O holandês Louis van Gaal, é um treinador muito experiente, com vários títulos nacionais e internacionais no seu curriculum. Tais só atestam a sua qualidade no que faz. E, quer se goste ou não, ontem fez muita diferença. Numa selecção holandesa onde a defesa foi, se não me falha a memória completamente nova, face à que jogou no euro 2012, assim como boa parte do meio-campo e pelo menos um elemento do ataque - i.e., cerca de 75% da equipa - chegar ao Algarve e apresentar o grau de organização que apresentou... não é para todos!

Aliás, acho que o próprio seleccionador nacional e muitos outros deveriam aprender com esse grande mestre holandês. É óbvio que as coisas não correram a 100% para a selecção holandesa, mas dada a juventude de muitos dos jogadores, face a um conjunto nacional mais experiente, embora com elementos de segunda linha, mas com praticamente todas as suas principais referências, exceptuando Nani e João Moutinho. Então a pergunta persiste, porque é que o Paulo Bento não consegue por esta equipa de Portugal a jogar decentemente?

Ver Portugal jogar torna-se fastidioso. Sabemos que há talento... é verdade que poderia e deveria haver mais, mas bolas! Temos um Ronaldo, temos um Coentrão, temos um Pepe, e temos muitos outros que não são assim tão mal jogadores! Sabemos que são dadas todas as condições à equipa... Sabemos que não é por falta de apoio de todos (excelente moldura no estádio do Algarve que registou o seu máximo!)... então porque falhamos tanto na qualidade de jogo?

A reposta a esta questão é sempre a mesma: qualidade de treino, qualidade do modelo de jogo nacional e os jogadores convocados!


As convocatórias...
Começo primeiro com as convocatórias pois elas supostamente ajudam a identificar, através das características dos jogadores convocados, que tipo de modelo de jogo determinado seleccionador pretende implementar. Isto do ponto de vista teórico e perante a maioria dos seleccionadores nacionais. O problema é que em Portugal as convocatórias parecem ser feitas por terceiros com agendas muito próprias.

Antunes e Eliseu, dois "canhotos" que poderiam fornecer
melhores soluções à selecção nacional.
Olhando para a convocatória nacional, uma das maiores pechas da equipa é a falta de esquerdinos. Coentrão e Miguel Veloso são os únicos esquerdinos de raiz, sendo o primeiro o único com função preponderante na profundidade da ala esquerda. Antunes que fez uma época passada excelente, repartida entre a Mata Real e a cidade espanhola de Málaga, não parece ser solução para defesa esquerdo, quando o deveria ser. Sílvio parece ser o todo terreno, mas se à direita penso que pode render facilmente o João Pereira, na esquerda penso que deveria ser imprescindível um canhoto. Pois assim, aproveitaria os espaços criados pelas movimentações do Ronaldo, para subir no terreno e dar profundidade à equipa. Caso contrário, são dois jogadores no mesmo flanco a tenderem para o mesmo local, o que facilita a vida a quem defende. Outro esquerdino, que tem estado em alta e até poderia fazer a vez de Nani, pois tem experiência e qualidade para tal, é um tal de Eliseu. Rápido, trabalhador, polivalente, tecnicista,... é acima de tudo um jogador de equipa, que muito poderia contribuir para melhorar o nosso ataque. Reparem que o Eliseu gosta tanto de ter a bola nos pés, como de procurar a bola no espaço, batendo facilmente os adversários em corrida. Depois, sendo um canhoto a jogar sobre a ala-direita (partindo do pressuposto que o Ronaldo ficará sobre a ala-esquerda), poderá aproveitar o seu melhor pé, para em slalom poder desferir remates frontais, assim como criar espaços para as subidas do João Pereira. Outras excelentes características deste jogador voluntarioso, é que é um jogador que gosta muito de jogar em apoio (o que seria óptimo para jogar com o Ronaldo e o Postiga, os outros dois avançados), mas também é um jogador que ajuda muito no trabalho defensivo, quer na pressão que desenvolve sobre o adversário, quer na marcação e no acompanhamento do lateral.

Hugo Viana e Manuel Fernandes dois médios criativos
que fazem falta àquele tridente de meio-campo.
Outra pecha de grande destaque nesta selecção é a falta de um elemento criativo no meio-campo. Jogadores como Rúben Micael, Paulo Machado, ou até mesmo o "asas de anjo" do André Martins, penso que uns não têm o necessário para jogar na selecção, enquanto outros estão a anos de o conseguir... e se é que o vão conseguir. Contudo, deixa-se fora da convocatória jogadores como Hugo Viana (mais um esquerdino...) e Manuel Fernandes, que muito poderiam dar àquele meio-campo nacional, continua a ser incompreensível! Ou se calhar talvez não... Já agora, só para mencionar algumas valências destes dois: o Hugo Viana poderia ser excelente caso Portugal queira jogar em contra-ataque, dada a sua capacidade de passe. Por seu turno Manuel Fernandes, junta "a fome com a vontade de comer", pois tanto pode desempenhar um papel completamente defensivo, como de número 10 do tridente de meio-campo, pois tem argumentos físicos, tácticos e técnicos para tudo isso. Ah! E ambos são excelentes executantes nas bolas paradas...


Mudar o modelo ou o sistema de jogo?
Sem mudar os jogadores do onze titular, a
disposição táctica acima permitiria retirar
melhor rendimento da selecção nacional,
evitando tantas perdas de bola na fase de
construção que foram prejudiciais para que a
equipa fosse partindo ao longo do jogo.
Olhando para o modelo e sistema de jogo do "clube de Portugal", ontem no Algarve, frente à selecção holandesa, verificamos, que jogámos no tradicional 4-3-3 com um tridente de meio-campo invertido. Ou seja, com um pivot defensivo (Miguel Veloso) atrás de dois interiores, um destes com características mais ofensivas (Rúben Micael) que o outro (Rúben Amorim). À frente deste meio-campo, um tridente atacante composto por Ronaldo à esquerda, Danny à direita e Postiga ao meio. O quarteto defensivo foi o habitual, formado pelos laterais João Pereira (à direita) e Fábio Coentrão (à esquerda), e a dupla de centrais formada por Pepe (meia-direita) e Neto (meia-esquerda).

À partida, tendo em conta o elenco e até o sistema de jogo implementado, Paulo Bento dava sinais de que queria dominar a partida. Portugal tentava jogar num modelo em posse, que era fléxivel o suficiente para aproveitar as transições rápidas, fazendo uso das capacidades físicas e técnicas de Coentrão e Ronaldo. Acontece, que os elos mais fracos da selecção foram aqueles que esperariam melhores performances neste encontro: Rúben Micael e Danny. Se o primeiro, tem actuado ultimamente nas costas de um avançado e não tanto sobre o meio-campo, com o segundo acontece algo parecido, pois Danny já não está habituado a jogar como extremo. A qualidade do treino poderá explicar muita coisa, assim como a qualidade do adversário. Contudo, se calhar com outras convocatórias, o assunto poderia ter sido resolvido sem mudar o modelo e o sistema, não acham?

De qualquer maneira, com os convocados à disposição e olhando para o desenrolar do encontro, Paulo Bento poderia ter feito algo mais. Mudar o modelo e o sistema de jogo poderia ajudar a levar Portugal a ter um melhor desempenho no encontro. Tendo como referência equipas que têm tridentes atacantes mortíferos, como é o caso do Barcelona (cujo modelo é em posse) e a selecção uruguaia (cujo modelo é essencialmente de transições), ambas possuem um elemento criativo que joga no corredor central (Messi no Barcelona e Diego Fórlan no Uruguai) e dois avançados que partem invariavelmente das faixas para o centro. Ora, será que Portugal não poderia adoptar um sistema semelhante? Penso que sim! E quem poderia ser essa unidade criativa do tridente atacante na selecção nacional? Simples, o Danny!

Já agora, dependendo da composição do tridente de meio-campo, o modelo poderia oscilar entre um jogar em posse e um jogar em transição pura, vulgo, contra-ataque. Em suma, o que descrevi é nada mais, nada menos que adaptar o sistema e o modelo de jogo às características dos jogadores e não o contrário.


Treino de qualidade...
O treino é da responsabilidade do seleccionador nacional,
Paulo Bento.
Durante todo o encontro foi possível verificar que praticamente cada jogador jogava ao seu ritmo próprio. É verdade que estamos em início de temporada, mas este facto também é válido para a selecção holandesa, não é verdade? Contudo, no estádio do Algarve, vimos uma Holanda muito mais homogénea a trocar a bola, enquanto que Portugal eram perdas de bola totalmente infantis. Muitas delas ocorreram ainda na primeira fase de construção de jogo.

É preciso ser-se mais exigente no treino e evitar que o pensamento subconsciente que tendo o Ronaldo na equipa ele, mais tarde ou mais cedo, vai resolver o jogo se torne marcante naquelas cabecinhas. Só com treino exigente e de qualidade é que poderemos retirar o melhor que esta selecção pode nos dar, assim como o melhor que o Ronaldo nos pode oferecer. Nas linhas anteriores já dei algumas ideias quanto ao modelo e sistema de jogo. Colocá-los em prática não me parece ser algo transcendental, visto que muitos outros treinadores e seleccionadores conseguem fazê-lo. Também o factor tempo de preparação ou lesões de importantes jogadores sejam factores a ter em conta neste momento. Continuo a notar graves deficiências nas saídas de bola da defesa, na construção de jogo a meio-campo, na gestão de esforço e posse de bola, na utilização adequada do Ronaldo, nas movimentações paupérrimas de Postiga, nas transições defensivas, na pressão colectiva da equipa, etc e tal. Tudo isso pode e deve ser trabalhado em treino. Sendo assim, do que é que o Paulo Bento está a espera?


As estrelas da noite...
Sabiam que o central Bruno Martins Indi nasceu no
Barreiro? Que grande jogo fez frente a Portugal!
Do lado holandês, apesar do excelente tento de Strootman, quem me cativou mais pela positiva foi o defesa central Bruno Martins Indi. Conseguiu anular eficazmente tanto Danny, como Rúben Micael, como João Pereira, como Hélder Postiga e até mesmo o próprio Ronaldo. Agressivo q.b., rápido, corpulento, excelente no jogo aéreo e posicionamento muito bom em campo, fez uma exibição de encher o olho. Saliento para o facto deste rapaz poderia representar a selecção nacional, pois nasceu no Barreiro, imaginem só! Outra característica que o Bruno tem e que valorizo é o facto de ele ser canhoto. Não é porque acho que os canhotos sejam melhores ou piores. Tem a ver com a posição em que o central joga e o modelo e sistema de jogo em que está inserido. Por outras palavras, um central canhoto, terá muito mais facilidade em dobrar as costas do lateral esquerdo, saindo a jogar com a bola controlada. Por outro lado, nos modelos mais recentes de posse, é normal que o sistema , à saída da bola através da defesa, se forme nesse sector um tridente, com o recuo do médio defensivo para o centro da defesa e consequente largura dada pelos centrais. Ora tendo um central canhoto, a largura sobre o lado esquerdo fica melhor acautelada, permitindo maior segurança nessa fase de construção. É um pormenor que poderá parecer mesquinho a muita gente, mas que pode fazer toda a diferença.


Não foi só o van Persie que caiu aos pés do talento de
Rúben Amorim. Claramente o MVP português em campo!
Do lado português, não irei escolher o habitual Ronaldo, ou o incansável Fábio Coentrão. Vou sim escolher o Rúben Amorim. De todos os portugueses em campo, foi aquele que melhor jogou e soube interpretar a dualidade de funções que tinha de desempenhar em campo: a defender, tinha de ajudar o Miguel Veloso e, a atacar tinha que empurrar a equipa para o ataque. Fez tudo isso. Só lamento que o companheiro de sector Rúben Micael (e depois o Paulo Machado), não tenham facilitado com tantas perdas de bola em zonas proibitivas e que estragavam o ritmo e fluidez de jogo de Portugal. O Amorim, apesar de não parecer tão intenso (leia-se "de correrias") como o habitual titular da posição João Moutinho, parece estar igualmente em todo o lado ao mesmo tempo. Se considerarmos a maior mais valia que é a sua polivalência, a sua excelente tomada de decisão e a qualidade de passe curto e longo, penso que se o Paulo Bento não olhar a nomes, terá aqui dois grandes jogadores para cobrir a posição "8" da equipa: Amorim e Moutinho. Espero que Amorim continue a ser aposta para Paulo Bento... e já agora, também para o Jesus no Benfica!

Salientar a maior enchente registada no estádio do Algarve, desde sempre.
Apesar de muitas críticas, eu considero que naquela região do país era
importante uma estrutura desportiva deste género. Faltará é maiores
sinergias entre os clubes da região e demais entidades públicas para
tornar rentável aquele espaço. O Algarve tem um potencial enorme, que
necessita de ser mais explorado.

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